terça-feira, 17 de janeiro de 2012

JOHN WESLEY E AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO NO METODISMO PRIMITIVO

Wesley anota em seu Jornal, em 13 de fevereiro de 1760, um relato extraordinário. Um grupo de mais ou menos 30 pessoas se reuniu em Otley, às 8 horas da noite, para, como de costume, orar, cantar hinos e “estimular uns aos outros no amor e nas boas obras” (Hb 10, 24, um dos versículos favoritos de Jonh Wesley). Finda a oração, algumas pessoas, entre suspiros e gemidos, se queixaram da carga sentida pelo pecado que ainda tinham.

Depois da reunião, a maioria continuou ainda de joelhos, gemendo e suspirando pelas grandes e preciosas promessas de DEUS. Um dos participantes nem bem começou sua oração, quando o “Espírito Santo foi derramado sobre cada um deles, com gemidos que não podiam ser expressos”. Estalaram de todos os lados prantos fortes e ardentes, não havendo dúvida alguma a respeito do favor de DEUS. Só lhes restava permanecer ali, aguardando a ação purificadora do Espírito Santo. Um deles gritou em meio à agonia: “Senhor, livra-me de minha natureza pecaminosa”. Em seguida, bradou um segundo, um terceiro e um quarto, ao passo que o primeiro clamava: “DEUS de Abraão, de Isaque, de Jacó, escuta nos por causa de Teu Filho Jesus Cristo”. Outro disse: “Bendito seja, Senhor Deus, para sempre, porque limpou meu coração. Louva ao Senhor, minha alma. Todas as minhas estranhas louvem o Teu santo nome”. E ainda outro: “Agarro-me a Ti com mãos tremendo, mas não Te deixarei ir”, afirmando pouco depois: “Louvem o Senhor comigo, porque Ele limpou o meu coração do pecado”. Mais um exclamou: “Estou amarrado sobre o fogo do inferno por um fio muito delgado”.

O grupo continuou ali por mais de duas horas, uns louvando e magnificando a Deus, outros clamando por perdão ou pela pureza de coração, com a mais profunda agonia de espírito. Na manha seguinte, voltaram a se reunir e o Senhor esteve novamente presente para sarar os quebrantados de coração. Um recebeu a remissão dos pecados e três creram que Deus os limpou de suas faltas.

Wesley conta a experiência crendo firmemente que a ação de Deus naquele lugar e na vida daquelas pessoas foi uma ação legitima. Foi lá conhecer o grupo, ouviu os relatos, reconheceu que eram pessoas simples, pobres na maioria analfabetos e incapazes de falsear os fatos. Para ele, foi fácil perceber que o lugar e as pessoas haviam recebido a visitação do Espírito Santo de Deus.



18 de Janeiro - Os frutos não nascem sozinhos
Em janeiro de 1762 John Wesley vai à Irlanda. Depois de passar alguns anos em Dublin, dirige-se à Newry encontra a sociedade metodista em situação muito precária. As ofensas e brigas haviam despedaçado a sociedade. Do grupo de mais de cem pessoas, sobravam apenas 32. No culto de quarta-feira à noite poucos participaram. A chuva tinha afugentado os ouvintes curiosos e, depois do sermão, organizou o ágape, a festa do amor. Apesar do grupo pequeno, foi uma experiência maravilhosa.

Wesley assinou que Deus derramou seu espírito com abundância. Muitos saíram cheios de consolação, particularmente alguns vindos de Lisburn, a mais de 32 quilômetros de distância, para participar do culto. Uma jovem de dezesseis anos de idade passou por uma experiência muito bonita. Deus restaurou a luz da sua face e lhe deu clara evidência de seu amor. Tudo ocorreu de forma tão extraordinária que a sua alma parecia ser toda amor.

Por que o trabalho metodista na Escócia estaria passando por aquelas dificuldades? Meses depois, em julho, ele se dirigiu até Portarlington, onde havia uma sociedade pobre e morta. Não poderia ser diferente, pois seus pregadores se fechavam em um quarto com 20 a 30 ouvintes. Achavam que o trabalho pastoral consistia em cuidar apenas de um grupinho. Para que houvesse crescimento na obra, seria necessário muito trabalho. Os frutos não nascem sozinhos. È preciso trabalhadores que lancem as sementes, que as plantem.

Incomodado com aquela situação, Wesley dirigiu-se diretamente ao mercado da cidade. Ali, bem no centro, ele proclamou com voz forte e segura: “Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13,3). Com coragem e determinação, proclamou a Palavra de Deus e uma verdadeira multidão o rodeou. Na manhã seguinte, às 5 horas, o salão metodista estava repleto de pessoas, totalizando mais que o dobro de sua capacidade. Às 8 horas, ele retornou ao mercado e pregou sobre o texto “Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel?” (Os 11,8). Solenemente, a multidão escutou a proclamação da Palavra de Deus. Muitos atenderam ao chamado e se converteram ao Senhor.

12 de março – Ação do Espírito Santo
Algumas manifestações diferentes começaram a ocorrer durante as pregações de John Wesley: pessoas gritavam, levantavam os braços, caíam ao solo e choravam. Na primeira semana de março de 1742. Ele esteve pregando na região norte de Kingswood. Dia 12, avaliando seu trabalho, conversando sobre todos os casos, cuidadosamente, e se certificando da procedência das pessoas envolvidas com aquelas manifestações, concluiu que:

1. todas elas tinham perfeita saúde e nunca haviam sofrido convulsão de nenhuma natureza;

2. as ocorrências se deram de forma imprevista, sem aviso, quando as pessoas escutavam a Palavra de Deus ou refletiam sobre o que tinham ouvido;

3. no momento em que caíram no chão, elas perderam as forças e se viram, cada uma a seu modo, tomadas de forte dor, expressa de maneiras diversas: uma espada atravessando o corpo, um grande peso comprimindo-as contra a terra, uma tal asfixia que as impedia de respirar, um inchaço no coração prestes a rebentá-lo e a sensação de que o coração, as entranhas e o corpo todo estivessem sendo despedaçados. Desse modo, os sintomas observados não podiam ser creditados a qualquer causa natural, mas ao Espírito de Deus. Wesley não podia duvidar que Satanás estivesse despedaçando aqueles que se aproximavam de Cristo.

Ainda naquele ano, ele comentou, em seu Journal (30/dez), certas manifestações ocorridas nos cultos, tendo examinado meticulosamente todos os casos. Alguns não eram capazes de descrever o que lhe acontecia, apenas que, a certa altura do culto, se viam caídos no chão, gritando e sem controle do que falavam. Wesley estava convencido de que aquilo tudo era obra de Deus e, portanto, não cabia nenhuma repreensão: “Que sabedoria é essa que se atreve a repreender essas pessoas, dizendo que devem permanecer silenciosas? De modo algum! Deixem que clamem por Jesus de Nazaré até que Ele responda ‘Tua fé te salvou”’.

18 de março - Avivamento Necessário
O Journal (18/mar./1761) de John Wesley descreve uma porção de acontecimentos importantes, confirmando a maravilhosa ação de Deus em Wednesbury.

Em conversa com vários moradores, ávidos por testemunhar a realização de Deus em suas vidas, Wesley concluiu que ocorria ali um avivamento semelhante ao da cidade de Londres. Ficou muito feliz ao reconhecer que o movimento metodista produzia frutos admiráveis em todos os cantos e tinha motivos de sobra para esperar que tais sinais significavam apenas o início de uma grande obra.

Em todos os cultos, havia libertação. No de domingo de manhã, um prisioneiro de Satanás foi posto em completa liberdade durante o sermão. No sábado à noite, outro se derramou e aceitou Jesus Cristo. Diversos receberam o perdão de seus pecados. Na segunda e na quarta, pessoas creram que “o sangue de Jesus Cristo os limpou de todos os pecados” (1 Jo 1,7). Naquela quarta-feira, 18 de março, a graça misericordiosa de Deus esteve presente e muitos suplicaram: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me” e ouviram resposta idêntica àquela oferecida por Cristo ao leproso: “Quero, sê limpo!” (Mt 8,3). Muito feliz ao verificar que o Senhor honrava o seu ministério, Wesley disse: “A presença de Deus foi tão maravilhosa até a meia-noite, como se tivesse curado toda a congregação”.

3 de abril – Deus Continua Agindo
Às 9 horas da manhã de 3 abril de 1764, Wesley pregou em Scotter, povoado situado um pouco mais de 10 quilômetros a leste de Epworth. Assim que iniciou o sermão, surgiu uma chama do Espírito Santo e muitos se convenceram de seus pecados quase imediatamente, sendo justificados.

Muitos adversários do evangelho, incitados por um homem maldoso, que afirmava não haver lei para os metodistas, organizaram motins e tumultos, visando a atrapalhar o trabalho de Wesley. As confusões só terminaram quando um juiz daquela comunidade, procurando por Wesley, acatou a causa e impediu a atividade dos baderneiros, que ficaram mansos como ovelhas.

Após o trabalho em Scotter, Wesley se dirigiu a Grimsby, povoado antes extremamente indiferente ao Evangelho, mas agora transformado no mais vivo e atuante da região. Ele ficou muito feliz com a descoberta do grande e rápido aumento na sociedade. Havia uma multidão na casa de reuniões e, mesmo com o acréscimo das galerias, o espaço não era suficiente para tanta gente. Wesley falou sobre a natureza da perfeição cristã, que muitos indecisos quanto a doutrina passaram a ficar completamente satisfeitos. A questão segundo ele é experimentar o que se crê. No culto da noite, todos os líderes do povoado estavam presentes e viram a ação maravilhosa do Espírito Santo. Alguns participantes caíram ao chão como mortos e, logo depois, se alegraram com gozo inefável (1 Pd 1,8). Uma mulher foi acometida por violentos ataques. Depois do culto, Wesley foi visitá-la e a viu em tremendas convulsões dos pés a cabeça e tremedeiras espantosas. Na manhã seguinte, ela já se encontrava plenamente liberta, reconhecendo a bondade e a misericórdia de Deus.

4 de abril - Evitando Falsas Ilusões
Wesley não se iludia com certas manifestações durante os cultos. No dia 4 de abril de 1748, em Holyhead, no país de Gales, ele pregou para uma assistência numerosa. O culto foi bastante inspirado e grande parte da congregação derramou-se em lágrimas, comovida e desejosa de alcançar a salvação.

O que, para muitos pastores, poderia ser compreendido como um trabalho evangelístico de sucesso, para Wesley, exigia uma avaliação mais serena e cuidadosa. Apesar de todas as mostras visíveis de aquela comunidade estar preparada para a obra do Senhor, Wesley se mostrou reticente, achando que muito trabalho havia a ser feito. Muitos o procuraram desejosos de contar as suas experiências. Tudo bem bonito, um sucesso, mas Wesley sabia ser apenas o inicio da caminhada. Início promissor é verdade, no entanto, achava que quando “as águas se esparramam demais, não são profundas”.

Em 11 de maio de 1765, a presença de Wesley é divulgada na cidade de Derry, na Irlanda do Norte. Na manhã seguinte, domingo, às 7 horas, ele pregou, na praça principal, para a maior platéia que já havia visto naquela região. Após o culto, ao ver o entusiasmo das pessoas, ele mais uma vez se mostrou reticente: “As águas se estendem tão largas como em Athlone. Deus permita que sejam igualmente profundas!”.

30 de abril - Valorizando o Jejum
John Wesley aconselhava muitos pastores a seguir o exemplo de Samuel Meggot, que por meio do jejum, conseguira dinamizar um circuito capenga. Com base em Mateus 6, 16 – 18, explica como deve ser o jejum: Em primeiro lugar, é fundamental que se volte exclusivamente ao Senhor e que os nossos olhos estejam sempre fixos Nele. Que nossa intenção seja glorificar nosso Pai que está nos céus, expressar nossa vergonha e dor pelas transgressões cometidas contra Sua santa Lei, aguardar o aumento da graça purificadora, fixar nossos afetos nas coisas do alto, acrescentar seriedade e honestidade às nossas orações, apartar a ira de Deus e obter as grandes e preciosas promessas que Ele nos fez por meio de Jesus Cristo.

É preciso tomar cuidado e evitar que o jejum se converta em prática para alcançar o reconhecimento das pessoas. Contra isso há a admoestação do Senhor: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, que desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam (Mt 6,16).

Outro risco freqüente é transformar o jejum em obra meritória. Muitos imaginam que, jejuando, se tornam merecedores d alguma coisa. O desejo de estabelecer nossa própria justiça, de procurar a salvação por mérito, e não por graça, é algo profundamente arraigado nos corações humanos. Não devemos imaginar que o mero e formal cumprimento do jejum atrairá inevitavelmente a benção divina. O jejum não é uma armadilha com vista a alcançar algum fruto, por mais honroso e necessário que seja. Também não é uma prova de resistência. A saúde, dom de Deus, deve ser preservada. Qualquer esforço extraordinário, comprometedor da saúde, transforma o jejum em sacrifício, em obra humana.

O jejum é um precioso meio de graça, devendo ser realizado em todas as oportunidades possíveis, acompanhado de ardente oração, do derramamento da alma diante de Deus e da confissão, ao Senhor, dos pecados, necessidades, culpabilidades e desamparos. Que sejam feitas orações por nós mesmos, por nossos irmãos, pelo povo de Deus e por toda humanidade.

Para que o jejum seja completo, é necessário estar associado a obras de misericórdia, como disse o anjo do Senhor a Cornélio, em seu jejum e oração: “Suas orações e suas esmolas elevaram-se para memória diante de Deus” (At 10,4).

28 de maio – O Espírito Santo Continua Agindo
John Wesley copia em seu Jornal (28/mai/1759) páginas do diário de outra pessoa, provavelmente a Sra. Elizabeth Blackwell: O Sr. Blackwell e eu fomos ouvir o Sr. Hicks em wrestlingworth, a seis quilômetros de Everton. Primeiramente, ficamos felizes em saber que Ele havia se entregado completamente ao trabalho de Deus e que o poder de Deus se manifestava sobre seus ouvintes. Enquanto ele pregava, 15 ou 16 ouvintes sentiram as flechas do Senhor, caindo ao chão. Alguns clamaram com força, durante horas, ao passo que os demais permaneciam silenciosos. Pude ver, ao lado, uma menina profundamente convencida do pecado e um menino com 9 ou 10 anos, que, como muitos outros, ao serem levados à casa pastoral, estenderam-se como mortos ou lutavam com todas as forças. Em pouco tempo, seus gritos aumentaram descontroladamente, de modo que o canto mais forte mal podia ser ouvido. Por fim, alguém me chamou para orar e, por algum tempo, todos se acalmaram. Mas o barulho recomeçou. O Sr.Hick orou e, depois dele, o Sr. Berridge. Ainda assim, apesar de alguns terem recebido consolação, outros permaneciam em profunda tristeza.

A luta violenta de muitos na igreja acabou com vários bancos quebrados. É comum as pessoas permanecerem imóveis e depois cair, ao regressar aos seus lares. Alguns foram encontrados estendidos como mortos pelo caminho e nos jardins de Berridge, sem poder caminhar de volta à casa. De Forma geral, noto que poucos anciãos e apenas alguns ricos experimentam essa obra de Deus. Eles geralmente a desprezam ou até se indispõem contra ela. Na verdade, chegando a negar os sacramentos para aqueles membros de sua paróquia que fossem ouvir o Sr. Berrdge. Nenhum desses cavalheiros, nem o Sr. Hicks, nem o Sr. Berrdge, eram eloqüentes, e até pareciam débeis no falar. O Senhor, por este meio, demonstrou claramente que esta é Sua própria obra.

Um dos personagens citados, John Berridge, foi pregador metodista em Everton. Não foi muito tranqüila a relação deles com os irmãos Wesley, especialmente por causa da sua teologia calvinista e da ligação estreita com a condessa de Huntingdon e com George Whitefield. O pomo da discórdia ocorreu em 1760, quando El publicou Collection of Divine Songs, incluindo hinos de Charles Wesley modificados conforme sua teologia calvinista.

FONTE: BARBOSA, José Carlos. Adoro a Sabedoria de Deus. Itinerário de John Wesley o Cavaleiro do Senhor. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002

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